quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Moradora de Volta Redonda com dislexia supera obstáculos da condição: 'Mostro para quem duvidava que consigo'


No Dia Nacional de Atenção à Dislexia, conheça a história da universitária de Volta Redonda, de 21 anos. Psicopedagogo e neurologista tiram dúvidas sobre o distúrbio de aprendizagem.

VOLTA REDONDA - “Demorei bastante tempo para aprender os meses do ano, os planetas do sistema solar e até mesmo meu aniversário”, relembra Ana Beatriz Gomes Marques, de 21 anos, estudante de odontologia que foi diagnosticada com dislexia quando ainda era criança.

Por conta desse distúrbio, a jovem universitária de Volta Redonda passou por diversas dificuldades não só no aprendizado.

Ela conta que teve que lidar com a falta de preparo das escolas e encarar o preconceito dentro da sala de aula.

Nesta terça-feira (16 de novembro), Dia Nacional de Atenção à Dislexia, o g1 mostra como é a vida dessa jovem e apresenta orientações de especialistas no assunto.

De acordo com a Associação Internacional de Dislexia, esse transtorno de aprendizagem de origem neurobiológica atinge de 5% a 17% da população mundial.

Estudante de odontologia com dislexia supera os obstáculos do distúrbio.
Foto: Divulgação/Redes sociais

Segundo Ana Beatriz, no caso dela, os principais sinais apareceram ainda na escola: dificuldade no entendimento das matérias, troca de letras semelhantes na hora de escrever, desatenção constante e incapacidade de acompanhar a turma.

“Minha mãe foi várias vezes pedir ajuda na escola e eles falavam que não podiam fazer nada. O que fizeram foi me excluir do resto da turma, para evitar ‘atrapalhar’ o aprendizado deles. Eu repeti a terceira série por não conseguir acompanhar os outros e isso mexeu bastante comigo “, relata a jovem.

O diagnóstico só veio após a transferência escolar, quando a família foi orientada pela psicóloga da antiga instituição de ensino a buscar um psicopedagogo, profissional que trata deste tipo de distúrbio.

Ainda que tivesse a sua condição comprovada, Ana Beatriz afirma que ouviu da boca de muitas pessoas que era "preguiçosa, desinteressada e que nunca conseguiria sequer se formar".

Para superar as barreiras, a jovem contou com a ajuda da família para aprender de formas alternativas, se adaptar e não desistir do que queria.

“É a melhor parte. Mostrar para quem duvidava que eu consigo”, conta a universitária, que já está no quinto período da faculdade.

Ana Beatriz, estudante de odontologia — Foto: Divulgação/Redes Sociais

Mas afinal, o que é dislexia?

De acordo com o psicopedagogo Alison de Castro Gaspar, a dislexia é um distúrbio de aprendizagem que interfere na correspondência das letras (símbolos gráficos) e dos sons.

Dados levantados pela Associação Brasileira de Dislexia, apontam que entre os anos de 2013 e 2021, 47% dos pacientes avaliados tinham o transtorno.

O profissional explica que, em geral, os primeiros sintomas do distúrbio são notados ainda na infância pelos professores. O aluno costuma apresentar as seguintes dificuldades:
  • Na coordenação motora fina (letras, desenhos, pinturas etc.) e/ou grossa (ginástica, dança etc.)
  • Troca letras, principalmente quando elas possuem sons parecidos, como: “f” e “v”, “b” e “p”, “d” e “t”
  • Para copiar textos
  • Reconhecimento de rimas
  • Atraso no desenvolvimento da linguagem
  • Desinteresse por livros e leitura de modo geral
Caso professores notem essas características em sala de aula, é importante que os pais sejam informados pelos educadores para que procurem por ajuda especializada o quanto antes.

"O psicopedagogo é quem fará a aliança entre a escola e a família, observando como se dá essa aprendizagem, pois ter dislexia não significa que todos os disléxicos são iguais. A aprendizagem é individual e personalizada por esse profissional", explica Alison.

Ainda segundo o profissional, é necessário um acompanhamento multidisciplinar, também contando com um fonoaudiólogo e neurologista.

Meu filho é disléxico, e agora?

"Os disléxicos perdem a confiança e a motivação rapidamente quando percebem que seus colegas avançam nos conteúdos e os deixam para trás", alerta a neurologista Mariana Cunha, ressaltando a importância de uma identificação precoce do distúrbio.

Em alguns casos, os disléxicos acabam sendo deixados de lado em diversas situações, como na escola, e desenvolvendo comportamento antissocial.

Por isso, é importante que os pais sejam compreensivos e presentes na vida da criança. A profissional elaborou uma lista de comportamentos sugeridos aos familiares nessas circunstâncias:
  • Evite sugerir que a criança/adolescente é "burro", "lerdo" ou "preguiçoso";
  • Não brigue ou castigue o seu filho(a) por causa do seu desempenho na escola;
  • Evite comparar o seu filho com outros irmãos, primos ou amigos;
  • Reconheça que seu filho(a) tem dificuldades e mostre-se disponível para ajudá-lo;
  • Valorize as qualidades e áreas em que a criança/adolescente tem facilidade e prazer;
  • Prepare um ambiente de estudo silencioso iluminado e sem distratores (sem brinquedos, jogos, TV etc.);
  • Tire algum tempo para fazer algo junto com a criança/adolescente e cultivar uma boa relação com seu filho(a) e estimular sua auto- estima;
  • Estimule a leitura. Um momento de leitura em família pode ser uma boa opção;
  • Acompanhe a vida escolar de seu filho(a) e mantenha contato com os professores e profissionais envolvidos;
  • Organize uma rotina de estudos, um pouco a cada dia;
  • Converse com o seu filho sobre o que ele aprendeu na escola naquele dia;
Apesar disso, a profissional destaca que pessoas disléxicas têm, em geral, muitas qualidades. Entre elas, uma ótima habilidade espacial (como construção de modelos), pensar profundamente sobre diversos assuntos, consciência social bem desenvolvida, resolução de problemas rapidamente e alto desempenho em geometria, xadrez, jogos de baralho e de computador, bem como habilidades tecnológicas superiores.

Via: G1

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